O automobilismo é reconhecido por exigir investimentos elevados, mas raramente se detalham os valores necessários para transformar um kartista em piloto de Fórmula 1. Levantamento com dados de competições de base, relatos de atletas e dirigentes mostra que a escalada pode passar facilmente da casa de alguns milhões de reais.
Perfis variados no grid atual
No pelotão principal convivem realidades opostas. Lance Stroll, da Aston Martin, chegou à categoria com apoio integral do pai, o bilionário Lawrence Stroll, que inclusive adquiriu a equipe em que o filho corre. O atual campeão mundial Lando Norris também contou com o patrimônio de seu pai, Adam, que fez fortuna no mercado financeiro britânico.
Já Fernando Alonso, bicampeão, e Lewis Hamilton, heptacampeão, vieram de famílias sem grandes recursos. No caso de Hamilton, o pai chegou a manter quatro empregos para bancar o início da carreira antes de a McLaren contratá-lo aos 11 anos. Charles Leclerc parou de receber ajuda familiar aos 13 anos e avançou graças ao empresário Nicolas Todt e ao programa júnior da Ferrari.
Depoimento de quem chegou lá
George Russell, hoje na Mercedes, calcula que o pai gastou cerca de 1 milhão de libras (R$ 6,76 milhões) em 12 anos. “Se começasse agora, não conseguiria”, admite o britânico, citando a escalada dos custos no kart.
Quanto custa cada etapa
Segundo Jos Verstappen, ex-piloto de F1 e figura ativa no kartismo, alinhar em uma equipe de ponta custa entre 9 mil (R$ 60.840) e 13 mil euros (R$ 87.880) por prova. Uma temporada completa para crianças de oito anos pode ultrapassar 130 mil euros (R$ 878.800); aos 13, o orçamento varia de 220 mil (R$ 1,49 milhão) a 260 mil euros (R$ 1,75 milhão).
Nos monopostos, as cifras sobem:
- Fórmula 4: 520 mil euros (R$ 3,52 milhões) por temporada;
- Fórmula Regional Europeia (Freca): 1 milhão de euros (R$ 6,76 milhões);
- Fórmula 3: de 1,3 milhão (R$ 8,79 milhões) a 1,6 milhão de euros (R$ 10,82 milhões);
- Fórmula 2: em torno de 2,3 milhões de euros (R$ 15,55 milhões).
Equipes costumam equilibrar o orçamento juntando pilotos com grande aporte financeiro a talentos com menos recursos, estratégia que viabiliza descontos ou vagas subsidiadas aos mais rápidos.
Por que tudo ficou mais caro
Nos anos 1990, disputar a Fórmula 3 Britânica custava perto de 250 mil libras (R$ 1,69 milhão). Atualizado pela inflação, equivaleria a 500 mil libras (R$ 3,38 milhões), valor que hoje praticamente dobra. A incorporação da F2 e da F3 ao calendário da F1 ampliou o número de eventos e elevou gastos logísticos, além de exigir equipes maiores para competir em vários países.
Flavio Briatore e Bruno Michel, responsáveis pela transição da antiga F3000 para GP2 em 2005, adotaram o formato monomarca para reduzir disparidades técnicas. Ainda assim, aumento de passagens aéreas, hospedagem, salários de engenheiros e melhorias de segurança mantêm a curva de custos ascendente.
Iniciativas de redução de despesas
Para ampliar o acesso, programas como Campeões do Futuro cobram 20.800 libras (R$ 140.608) por seis etapas de kart. No Reino Unido, a FAT Karting oferece corridas a 406 libras (R$ 2.744) e um pacote anual de 5.000 libras (R$ 33.800). A própria FIA criou um plano global em 2024 que promete reduzir em até dois terços o investimento no kart tradicional, além de reforçar categorias como Fórmula 4 e Fórmula Regional como portas de entrada mais baratas.
Mesmo quando talentos ingressam em academias de F1, o suporte raramente cobre 100% das despesas. A busca por patrocinadores ou investidores particulares continua decisiva até o piloto se firmar na principal categoria do automobilismo.
Com informações de Autoracing



